Hora de pedir ajuda!

6/05/2017 às 02h05
 

Quando se fala em relacionamentos abusivos é muito comum pensar na violência física, por ser a mais visível. Mas ela não é a única. Nesse caso, temos a violência moral. "O principal na violência moral é a desqualificação da companheira e a humilhação", explica Marina Ganzarolli, advogada, doutoranda em Sociologia Jurídica (USP) e cofundadora da DeFEMde-Rede Feminista de Juristas. Ele nunca encostou a mão em você, mas está sempre fazendo você se sentir um lixo.

Por Flora Paul / Tatiana Farah

Fonte: BuzzFeed

"O QUE COMEÇA COM UM GRITO PODE SE TORNAR UM TAPA NO FUTURO!"

1. Em qualquer conversa é comum ele fazer você sentir que não entende nada ou que está sempre errada.

Nem precisa ser uma discussão. E a forma de fazer isso pode ser sutil: não precisa ser uma frase direta, como um "nossa, que burro isso que você disse", mas a impressão é a de que você nunca fala nada de bom e está sempre completamente equivocada. 

2. Quando você não concorda com ele, ouve coisas como "você é louca", que "isso é coisa da sua cabeça" ou que você está fazendo drama à toa.

Isso se chama gaslighting e é o abuso emocional em que o parceiro faz com que você comece a questionar sua própria compreensão da realidade.

3. Ele se acha no direito de controlar a sua vida e as suas escolhas.

Pode ser que ele queira que você troque de roupa. Que tire seu batom vermelho. Ou não goste que você tenha amigos homens. Ou, ainda, tente controlar onde você "pode" e "não pode" ir. Já ouviu algo como "mulher minha não faz/usa/fala isso"?

Ciúmes, possessividade e tentar ser controlador são comportamentos clássicos do companheiro que podem levar uma mulher para uma relação de violência, explica a juíza Teresa Cristina Cabral, da Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do Poder Judiciário do Estado de São Paulo (Comesp).

Isto também pode extrapolar para a violência patrimonial: passa a não ser só uma vontade, ele de fato controla suas contas, suas roupas, dá o dinheiro que você pode gastar, etc.

4. Você faz coisas contra a sua vontade por medo de como ele pode reagir. Ou ele não respeita quando você diz "não", inclusive durante o sexo.

Você não tá a fim de transar, mas ele insiste. Ou então você "acaba cedendo" porque quer agradá-lo. "A agressão sexual acontece também em relacionamentos", diz a jurista Marina Ganzarolli. "Ele faz você se sentir culpada ou na obrigação de satisfazê-lo. E pode acontecer o estupro mesmo, como o sexo anal forçado durante o sexo, por exemplo".

5. Ele "nunca te bateu", mas você costuma ter hematomas causados por ele ou ele usa a força física "para te acalmar".

A agressão física não é só um tapa, um empurrão. Ela também passa pelo beliscão ou por aquele hábito dele de "te segurar com força" quando vocês estão discutindo, deixando as marcas dos dedos deles nos seus braços, ou quando ele tenta te abraçar à força quando você não quer mais ficar perto dele, por exemplo.

6. Ele te fala que ninguém nunca vai te amar, te aceitar ou te querer além dele.

Estas são falas típicas da violência psicológica, que pode ser feita a partir da chantagem, da ameaça e do controle, explica Marina Ganzarolli. Frases como "se você fizer isso quer dizer que não me ama" e "se você não fizer isso eu vou embora" também se encaixam.

7. Ele não reage bem a suas conquistas e às coisas boas que acontecem na sua vida.

O dia em que vocês saem para comemorar uma coisa boa que te aconteceu inclui uma discussão besta sobre qualquer outra coisinha que mostre que você não é boa o suficiente, fazendo você questionar a si mesma.

8. Ele não gosta que você fale com outras pessoas, especialmente longe dele, ou tenta te fazer acreditar que a única opinião que você deve ouvir é a dele.

Este isolamento ajuda a provocar seu afastamento da família ou de amigos que possam te ajudar a sair do relacionamento abusivo.

9. Ele faz você sentir que a culpa por ele ser agressivo ou ameaçador é sua.

Esta é uma das maiores mentiras da relação abusiva. Lembre-se que a culpa pelas ações dele nunca é sua. Nunca. Você não "está pedindo". Você não "tirou ele do sério". Ele é responsável pelos atos dele, não você. Não se culpe.

10. As ações dele fazem você se sentir estranha ou questionar se o que aconteceu foi normal.

Não releve o que você está sentindo e aproveite para conversar com alguém em quem você confia, como uma amiga que você sabe que vai te ouvir sem te julgar. Nem sempre percebemos o que está acontecendo e falar pode te fazer entender melhor a situação. "Quando a mulher tenta falar e descrever as situações, ela percebe que aquilo não é normal ou natural", diz Marina.

11. Ele fala que em briga de homem e mulher outras pessoas não devem interferir e que seus problemas são "coisa de casal".

No Brasil, dois terços dos casos denunciados de violência contra a mulher são praticados por atuais ou ex-companheiros, segundo boletim de novembro de 2016 da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM). 

"Se a gente olha de forma estatística, você vê que não se trata de um problema doméstico, individual, mas sim de saúde pública, de educação. Tudo o que esta mulher está passando a vizinha tá passando, a mulher da rua de baixo está passando, a mulher de outro bairro está passando", diz Marina Ganzarolli.

12. Ele não te agride, mas desconta a agressividade batendo em mesas, portas e outros objetos.

Isto é sim uma forma de ameaça, de demonstrar a força dele e de dizer que você pode ser a próxima.

13. Ele grita com você.

Lembre: violência não é só física. E tanto a juíza Teresa Cristina Cabral quanto a jurista Marina Ganzarolli reforçam: é muito comum que haja um escalonamento da violência. O que começa com um grito pode sim se tornar um tapa no futuro.

14. Ele te agride.

Pode parecer óbvio, mas é sempre bom lembrar: não, não está tudo bem, isso não é certo, você não merece e – novamente – isso não é sua culpa.

15. Ele sempre é agressivo ou violento, mas toda vez promete que não vai mais fazer isso.

Marina Ganzarolli explica que no ciclo da violência, após o momento da explosão (a briga, a agressão, a violência), logo vem o período conhecido como "lua de mel" 

É quando ele se mostra arrependido, diz que sabe que fez merda, promete que vai mudar, que vai fazer terapia, te dá presentes, fala o quanto te ama, te valoriza, te ouve, muda de sapo para príncipe. É nessa hora que a mulher desiste de denunciar o abusador. 

"A mulher não quer se livrar do companheiro, quer se livrar da violência", diz Marina. Nesse período, parece que vai ficar tudo bem. "Mas pode demorar horas, dias, um mês, um ano: o ciclo de violência sempre dá a volta".

Se você está em um relacionamento abusivo ou conhece alguém que está em um relacionamento abusivo, procure ajuda.

Você pode conversar com alguém de sua confiança, ligar para o 180, a Central de Atendimento à Mulher que funciona sete dias por semana e 24 horas por dia, ou procurar uma Delegacia da Mulher. 

Segundo o Mapa da Violência 2015 | Homicídio de Mulheres no Brasil, duas a cada três vítimas de violência atendidas pelo SUS são mulheres. Mas, vale lembrar, não são apenas homens que podem ser violentos em relacionamentos.